quarta-feira, abril 28, 2010

Extremos da Paixão

"Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo..."

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano,e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.


Caio Fernando Abreu no Livro Pequenas Epifanias - Crônicas 1986 - 1995.

segunda-feira, abril 19, 2010

TURBILHÃO

Viver é fácil, manter-se são é que é difícil. É um atropelamento só. Sabe aquela cena do filme o Rei Leão, na qual o Simba está perdido no meio de uma manada de antílopes? Então, é exatamente assim. A gente vai desviando daqui e dali, evitando tomar um solavanco de um lado e de outro, correndo por dentro e por fora, não apenas para se manter parte do sistema, mas também para a ele não sucumbir, não se alienar. É batalha de Deuses, cada um com o ego mais inflado que o outro, todos tentando mostrar o que não conseguem convencer nem a si mesmos! Ninguém é suficientemente forte para aguentar isso o tempo todo. Vamos nos deixando levar, em alguns momentos mais tranquilos e outros enlouquecidos, mas passando por tudo na ânsia de que um dia tudo vai melhorar e que ao olhar para trás encararemos tudo como apenas sofrimento necessário à elevação da alma. A tão almejada conquista da tranquilidade. Mas que alma? Tudo se perdeu. E que tranqüilidade? Como encontra-lá? Quanto mais se tem mais se quer. Ao conquistar supostas metas, surgem outras, ainda mais ousadas, fazendo com que a mente continue inquieta e a alma afeta ao fogo, ao calor, à tensão. E isso é bom? Sei não, mas se assim não for, o cara é tachado de acomodado, o malandrão. Quem é que está certo? E quem está na contramão?

São muitas perguntas, muitas respostas que aparecem quando não são mais necessárias, pois os questionamentos se revestem de novas formas a todo momento. Ô mente inquieta que quer abraçar o mundo. De forma tão rápida romper o casulo e ao mesmo tempo deixando fincada na terra a solidificação de sua base, para que não haja risco de morte na queda, que surpreendentemente virá um dia, mesmo aos mais corretos e de passos milimetricamente calculados. Afinal, por mais que se programe o dia de amanhã, só o amanhã poderá mostrar-lhe o que lhe reservou.

Um dia, há de chegar o dia, em que fechar os olhos não será descansar para enfrentar a batalha do dia seguinte, mas será a recompensa pela sobrevivência do dia que chegou ao final. Pois hoje, a ansiedade é tamanha que mal se consegue dormir em função da espera do que há por vir. Será que compensa? Não sei, mas, por enquanto, como está tudo invertido, inteiramente de pernas para o ar, será que há resposta capaz de ajudar? Sei não. É muito gente. É pouco tempo. É excesso de história para criar.